Destinatário: Sra. Morte
Talvez você não entenda o real motivo pelo qual lhe escrevo hoje. Não, este não é um pedido de adiantamento para a execução de seus trabalhos em minha vida. Faço questão de iniciar a carta desta forma para evitar possíveis mal entendidos...
Às vezes quando reclamo da vida e me penitencio de forma dura pelos meus erros o que me consola é você, sim, você! Afinal, deve ser muito mais doloroso cometer um erro, quando envolve tantas outras dores.
A maioria das pessoas prefere evitar o inevitável e trata-la com descaso, ignorando-a quase que completamente, como se assim, evitando falar seu nome ou lembrar da sua existência, você por algum descuido ou acesso de bondade esquecesse delas. Mas a gente sabe que não é assim, não é mesmo?
Eu tenho pensado na morte, digo, em você com uma freqüência quase tão intensa como as pessoas pensam na vida, não que eu não pense na vida, mas pensar sobre você me ajuda viver a vida de uma forma mais intensa.
Porque se a gente não pensa no fim das coisas, acabamos não dando o devido valor aos inícios e meios nos quais nos encontramos.
Algumas pessoas dizem que o seu papel na Terra é meramente figurativo, calma eu explico... Dizem que você não existe, ou no máximo existe parcialmente, tirando apenas a vida do corpo e libertando a alma desse plano material. Confesso que lendo assim me pareceu um tanto quanto poética a sua função, pena que nem todos enxerguem a poesia que há em você...
O que ainda não foi dito nesta carta, é o porquê lhe escrevo, o porquê lhe procuro assim tão desesperadamente, mas eu não posso simplesmente escrever o que eu quero, preciso pensar duas vezes antes de escrever cada palavra, pois somente os loucos e os apaixonados seriam capaz de despertar a irá da morte.
Sim... Foi exatamente o que eu disse: a-p-a-i-x-o-n-a-d-o-s, ou você acha que eu não reparei na forma sádica como você os separa? O pior não é a morte física propriamente dita, mas a morte dos sentimentos, você atua nesse seguimento também? Enfim...
Desculpe, perdi o foco, eu ainda preciso lhe dizer, preciso lhe falar abertamente sobre essas coisas que eu não sei dizer, essas coisas que nos tiram o sono e nem ao menos sabemos explicar, preciso que me ajude a entender o que nem mesmo eu entendo.
Mas e se você simplesmente me ignorar? Se resolver se vingar dos milhares de anos de descaso da humanidade em cima de uma única pessoa, se minhas perguntas não tiverem a menor perspectiva de resposta eu haveria de deixar de formulá-las?
Eu sempre tive a curiosidade de saber qual seria o seu real humor, se você encara o seu trabalho como um tédio, ou o vê como um mal necessário. Talvez se divirta, não sei... Existem tantas formas doentias de diversão mundo a fora...
Devo estar te importunando e ainda nem disse o que preciso te dizer. E eu me pergunto quantas pessoas deixaram de morrer enquanto te prendo a minha carta, algumas centenas de milhares, milhões talvez? Não... Eu não estou querendo te distrair, ao menos não era essa a minha intenção. Por favor, não se irrite ou perca a calma justo agora, eu ainda preciso que você saiba o que não dá mais para adiar, o que eu preciso mesmo lhe dizer é quê.
Luan Emilio Faustino 07/10/2010 – 08:30h
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